"Incorporar" é o trabalho de conclusão de curso de Arquitetura e Urbanismo de
Kênia Alves. Ela se formou pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais /
UnilesteMG em 2008. Para visualização das imagens, clique aqui.


Este trabalho partiu de uma reflexão sobre o modo de conceber arquitetura e urbanismo, diante de uma tentativa de posição frente à postura distanciada e projetual do arquiteto e por extensão à arquitetura concebida como veículo de poder e de imposição de uma verdade. Ele buscou gerar uma situação de diálogo entre diversos atores, um intercâmbio de idéias e “modos de fazer”, tocando num âmbito menos autoral, mais anônimo, coletivo e relacional, no qual o arquiteto se conecta, se funde a outros corpos na cidade.

Considerando as muitas estratégias empregadas para intervir no espaço e no cotidiano urbano, impositivas, ineficientes, além de propulsoras de uma objetividade mediocrizante da vida, principalmente a coletiva, optou-se por atuar na pequena escala, na rotina, de uma forma tática (em contraposição às estratégias de grande escala), apostando muito mais na informalidade, no encontro, na participação, na construção de situações e discussões de idéias, que no projeto abstrato, tradicional, do planejamento institucional.

Partindo dessa premissa, deu-se inicio a uma ação dentro do contexto urbano da cidade de Timóteo. Utilizando-se de um levantamento de personagens comuns dessa cidade, optou-se por trabalhar com os garis. A escolha aconteceu devido à particularidade do modo de vida compartilhado que ocorre dentro da mobilidade do trabalho dessas pessoas. A intenção era desenvolver algo que facilitasse a rotina diária destes e que além de contribuir para um reposicionamento dos garis na paisagem física, sucitasse discussões e questionamentos sobre a inserção deles na paisagem humana da cidade.

Enfocando o tema incorporar, ou seja, priorizando a vivência encorpada na concepção arquitetônica, buscou-se participar ativamente do cotidiano de trabalho dos garis. Objetivou-se com isso um conhecimento mais aprofundado sobre essas pessoas, suas necessidades e o contexto no qual estão inseridas.

O método de pesquisa utilizado é chamado de “Observação Participante” e tem como principal objetivo o deslocamento do estudo para o campo concreto da realidade. Ele é muito utilizado em outra áreas de conhecimento, como antropologia, sociologia e comunicação social. A partir da observação participante o pesquisador amplia suas possibilidades de obter informações, que vão além das adquiridas nas entrevistas tradicionais. Trata-se de conhecer uma determinada situação através da convivência.

Após abordar alguns garis no centro da cidade, apresentou-se a eles a proposta do trabalho, não havendo nenhuma resistência. O envolvimento com os garis proporcionou uma fonte constante de aprendizado, uma vez que a relação de confiança e proximidade construída no convívio permitiu que fosse presenciados e vivenciados hábitos diários que não ocorreriam ou que seriam alterados na presença de pessoas estranhas.

Com a observação participante foi possível identificar algumas necessidades, e a partir disso, utilizar a ferramenta de desenho para pensar objetos que pudessem intervir utilmente nas atividades diárias desses profissionais.

Esses desenhos foram denominados “desenhos de idéias”, por funcionarem apenas como ponto de partida para a construção, não possuindo a intenção de minar soluções mais adequadas que pudessem surgir durante o processo.

O passo seguinte foi a realização de uma oficina, organizada com a intenção de construir junto aos garis um dos objetos desenhados. Ela contou com a participação de três mulheres garis e possibilitou que estas trabalhassem em uma atividade diferente e interferissem em parte do processo que estava diretamente relacionado a elas. Além de ter sido um momento de descontração, foi também um momento de desalienação que revelou a capacidade criativa das garis, bem como, o potencial de trabalho em equipe.

Frente à postura distanciada e previsível do arquiteto, procurou-se a infiltração da idéia de participação. Mais que buscar a solução de um problema através de um objeto preconcebido, procurou-se explorar a tática no ato arquitetônico de construir, conforme sublinha Certeau, misturando o conhecimento popular ao científico. Dessa forma, o pensamento estratégico de projeto vai sendo permeado por procedimentos de natureza tática.

Os objetos gerados na oficina podem não consistir em arquitetura, mas o procedimento envolvido, a identificação de uma necessidade, a transformação de materiais, a organização das pessoas em equipe e a materialização de um objeto em escala real, envolvem duas instâncias da arquitetura: o projeto (a concepção) e a obra (a concretização). Desse modo, a relevância encontra-se mais no processo, nas ações, no espaço existente entre essas duas etapas comuns ao método de produção arquitetônica, do que no objeto em si.

No decorrer do trabalho de investigação, foi possível perceber que apesar de haver apoio em parte da cidade, muitas vezes os garis não conseguem nem mesmo água durante seus trajetos e na maioria dos lugares não contam com infra-estrutura mínima para fazerem suas refeições. À medida que o contato in loco ia se desenvolvendo, essa precariedade da estrutura disponibilizada para a realização do trabalho dos garis se tornava mais evidente. Entre as demandas levantadas, a falta de estrutura para o momento do almoço se tornou urgente.

Durante as conversas que ocorriam com os garis, enquanto se acompanhava o trabalho deles, concluiu-se ser necessária a mobilidade do espaço que seria pensado para a refeição. O fator principal era a alternância de posição dos garis nos trechos, em relação ao horário determinado para o almoço. Tendo em vista que a intenção seria intervir em menor escala, criando objetos que pudessem ser realizados com a participação dos interlocutores, optou-se, então, por adequar o carrinho de coleta de lixo, de maneira a adicionar a ele a função de um espaço para refeições - visto que os garis sentavam-se no chão para almoçar - bem como minimizar algumas situações que até então eram improvisadas de maneira inadequada, como por exemplo, as marmitas amarradas próximas as sacola de lixos.

Devido a este fato, ao construir o carrinho, acoplou-se compartimentos para guardar as marmitas e fogareiros, e, também, guardar e manter a temperatura das garrafas de água. Esses compartimentos foram higienicamente pensados, para que não tivessem o menor contato com os equipamento utilizados para a limpeza urbana, e, muito menos com o lixo recolhido.

Além disso, esses compartimentos foram alocados em uma parte do carrinho que pode ser removida e desdobrada de maneira a formar uma mesa, na qual o gari pode utilizar para fazer suas refeições. Foi elaborado também, um espaço para guardar assentos compactos que podem ser utilizados nesses momentos. Aliado a isso, planejou-se, ainda, um suporte para um guarda-sol, que ao ser aberto protege os garis tanto do sol, quanto da chuva, ao se alimentarem ou empurrarem o carrinho.

Dessa maneira, o carrinho foi dividido em duas partes, uma em que as marmitas e as garrafas de água eram guardadas, e outra destinada aos equipamentos de trabalho (vassoura, pá, sacola) e para colocar o lixo recolhido.

Para a confecção do carrinho foram reutilizados materiais adquiridos em depósitos de sucatas. Ele foi construído no laboratório de Engenharia do UnilesteMG, com o apoio de um funcionário, de um aluno da Engenharia Elétrica e outro da Engenharia Mecânica. A produção aconteceu de forma tática, sendo a idéia apresentada através de um croqui e desenvolvida à medida que soluções foram sendo pensadas junto a estes colaboradores, dispensando a mediação do desenho. A construção durou três semanas, e durante esse período nenhuma decisão era tomada sem antes ser apresentada ao restante da equipe, que se configurou nas três garis que estiveram presentes na Oficina.

Paralelamente a construção do carrinho, buscou-se através dessas conversas pensar um abrigo onde os garis pudessem guardar os equipamentos, usar o banheiro, trocar a roupa e descansar após o término da jornada de trabalho. As sugestões para este abrigo foram levantadas pelas garis em uma reunião, na qual elas fizeram alguns “desenhos de idéias”. Nessa mesma reunião foram definidos, hipoteticamente, alguns lugares adequados para a inserção dos abrigos.

A partir disso, apresentou-se a situação à diversas escalas dentro da cidade: urbanistas, chefe da secretária de obras, chefe e outros funcionários da empresa de limpeza urbana, associação de moradores, órgãos religiosos e moradores, visando uma reflexão acerca do tema. Enfim, mais do que construir um carrinho para os garis e/ou tentar solucionar os problemas desses profissionais, o presente trabalho buscou explorar o caráter político do espaço público, considerando-o como o lugar das negociações.
Kênia Alves de Paula - arquiteta e urbanista
T (31) 86136164 - keniaarqt@gmail.com