BORDAR
Este texto é uma costura de três importantes textos sobre o bordar. Reescrever por retalhos alinhavados foi a maneira encontrada de valorizar e dar crédito aos pesquisadores que estudam o assunto e resgatam seu valor.
Na Encyclopédie de Diderot et D'Alembert, publicada na segunda metade do século XVIII e que é uma extraordinária fonte de informação acerca das artes e técnicas do passado, inclusive nas suas dimensões sociais e culturais, não encontramos a entrada brodeuse, "bordadeira", mas unicamente brodeur, no masculino.
Para ser melhor colocado, o bordar visível, público, espectacular, ostentatório, caro, simbólico e economicamente valorizado, era produzido por homens e destinava-se à decoração das vestes das elites sociais e religiosas ou de acessórios têxteis usados em cerimônias políticas ou litúrgicas.
Em contrapartida, a elaboração do bordado destinado a um uso doméstico, íntimo, escondido ou reservado a acontecimentos do foro familiar (como batizados), testemunho próximo dos mecanismos dos corpos e das paixões, pertencia às mulheres.
No Brasil, em particular, a história do bordado acompanha a história das mulheres, trazendo suas marcas ‘alinhavadas’ por um modotempo feminino de ser, fazer e viver. As mulheres, com gestos especiais desejavam realçar, o amor, a saudade, a solidão, suas necessidade e suas possibilidades.
Uma característica nos relatos femininos são as lembranças não apenas de cada uma das mulheres neles envolvidas, mas que, também, envolvem a família e todos aqueles com quem mantêm relações, nas tantas redes que produzem diariamente.
As escolas femininas dedicavam intensas e repetidas horas ao treino das habilidades manuais de suas alunas produzindo jovens “prendadas”, capazes dos mais delicados e complexos trabalhos de agulha ou de pintura. Entretanto, a partir da luta pela emancipação da mulher, os trabalhos manuais, que eram uma forte marca da dominação, deixa de existir nas escolas.
Assim sendo, um bordado pode nos dar pistas da situação sócio-política, educacional e econômica de uma época, corroborando os estudos do cotidiano que permeado de pequenas narrativas, contam histórias de pessoas comuns, e seus cotidianos vividos.
O bordado pode ser um suporte de sobrevivência, mas também uma possibilidade de luta por uma identidade ou por uma vida comum. E a diferença entre o tradicional e o bordado contemporâneo é a referência cultural que neste último que é a mais diversa possível, o que conforma uma identidade mestiça, um emaranhado múltiplo de influências.
O que se percebe como ponto comum nos diversos textos estudados foi que o bordar refere-se à necessidade fundamental, individual e coletiva, de manter viva uma identidade construída com a memória e as singularidades de cada vida que o envolve: a convivência com a sua família, o contexto social e cultural, o trabalho, a religião, ou seja, com a identidade, particularidades e lembranças de cada um.
CHAGAS, Claudia . A busca do espaço com o bordado. In: 27ª Reunião Anual da ANPEd - Sociedade, Democracia e Educação: Qual Universidade?, 2004, Caxambu. 27ª Reunião Anual da ANPEd - Sociedade, Democracia e Educação: Qual Universidade?. Petrópolis : VOZES, 2004. v. 1. p. 15-28.
CHAGAS, Claudia . Bordado como expressão de vida: gênero, sexualidade. In: 30ª Reunião Anual da ANPEd- 30 anos de pesquisa e compromisso social, 2007, Caxambu/MG. 30ª Reunião Anual da ANPEd- 30 anos de pesqusa e compromisso social. Rio de Janeiro : Armazéns das Letras Gráficas e Editora Ltda, 2007. v. 1. p. 15-30.
DURAND, Jean-Yves. Bordar: masculino, feminine. In: ALIANÇA ARTESANAL, ed. - “Reactivar saberes, reforçar equilíbrios locais”. [Vila Verde]: Aliança Artesanal, 2006. p. 13-22.
PAOLIELLO, Carla. Alinhavo para a Oficina de Bordados. Ipatinga: Banca de Design, 07 de março de 2009.
Este texto é uma costura de três importantes textos sobre o bordar. Reescrever por retalhos alinhavados foi a maneira encontrada de valorizar e dar crédito aos pesquisadores que estudam o assunto e resgatam seu valor.
Na Encyclopédie de Diderot et D'Alembert, publicada na segunda metade do século XVIII e que é uma extraordinária fonte de informação acerca das artes e técnicas do passado, inclusive nas suas dimensões sociais e culturais, não encontramos a entrada brodeuse, "bordadeira", mas unicamente brodeur, no masculino.
Para ser melhor colocado, o bordar visível, público, espectacular, ostentatório, caro, simbólico e economicamente valorizado, era produzido por homens e destinava-se à decoração das vestes das elites sociais e religiosas ou de acessórios têxteis usados em cerimônias políticas ou litúrgicas.
Em contrapartida, a elaboração do bordado destinado a um uso doméstico, íntimo, escondido ou reservado a acontecimentos do foro familiar (como batizados), testemunho próximo dos mecanismos dos corpos e das paixões, pertencia às mulheres.
No Brasil, em particular, a história do bordado acompanha a história das mulheres, trazendo suas marcas ‘alinhavadas’ por um modotempo feminino de ser, fazer e viver. As mulheres, com gestos especiais desejavam realçar, o amor, a saudade, a solidão, suas necessidade e suas possibilidades.
Uma característica nos relatos femininos são as lembranças não apenas de cada uma das mulheres neles envolvidas, mas que, também, envolvem a família e todos aqueles com quem mantêm relações, nas tantas redes que produzem diariamente.
As escolas femininas dedicavam intensas e repetidas horas ao treino das habilidades manuais de suas alunas produzindo jovens “prendadas”, capazes dos mais delicados e complexos trabalhos de agulha ou de pintura. Entretanto, a partir da luta pela emancipação da mulher, os trabalhos manuais, que eram uma forte marca da dominação, deixa de existir nas escolas.
Assim sendo, um bordado pode nos dar pistas da situação sócio-política, educacional e econômica de uma época, corroborando os estudos do cotidiano que permeado de pequenas narrativas, contam histórias de pessoas comuns, e seus cotidianos vividos.
O bordado pode ser um suporte de sobrevivência, mas também uma possibilidade de luta por uma identidade ou por uma vida comum. E a diferença entre o tradicional e o bordado contemporâneo é a referência cultural que neste último que é a mais diversa possível, o que conforma uma identidade mestiça, um emaranhado múltiplo de influências.
O que se percebe como ponto comum nos diversos textos estudados foi que o bordar refere-se à necessidade fundamental, individual e coletiva, de manter viva uma identidade construída com a memória e as singularidades de cada vida que o envolve: a convivência com a sua família, o contexto social e cultural, o trabalho, a religião, ou seja, com a identidade, particularidades e lembranças de cada um.
CHAGAS, Claudia . A busca do espaço com o bordado. In: 27ª Reunião Anual da ANPEd - Sociedade, Democracia e Educação: Qual Universidade?, 2004, Caxambu. 27ª Reunião Anual da ANPEd - Sociedade, Democracia e Educação: Qual Universidade?. Petrópolis : VOZES, 2004. v. 1. p. 15-28.
CHAGAS, Claudia . Bordado como expressão de vida: gênero, sexualidade. In: 30ª Reunião Anual da ANPEd- 30 anos de pesquisa e compromisso social, 2007, Caxambu/MG. 30ª Reunião Anual da ANPEd- 30 anos de pesqusa e compromisso social. Rio de Janeiro : Armazéns das Letras Gráficas e Editora Ltda, 2007. v. 1. p. 15-30.
DURAND, Jean-Yves. Bordar: masculino, feminine. In: ALIANÇA ARTESANAL, ed. - “Reactivar saberes, reforçar equilíbrios locais”. [Vila Verde]: Aliança Artesanal, 2006. p. 13-22.
PAOLIELLO, Carla. Alinhavo para a Oficina de Bordados. Ipatinga: Banca de Design, 07 de março de 2009.
Abaixo segue uma breve apresentação de alguns artistas que hoje trabalham com o bordado e algumas de suas obras.
LISA KOKIN (http://www.lisakokin.com/)
O trabalho desta artista é baseado na memória e na história, pessoal e coletiva. O resultado pode ser visto em instalações, alterações em livros, colagens, esculturas e nas obras com botões. É um complexo sistema de destruição e preservação para conseguir explorar questões pessoais, culturais, e do comportamento humano.

Passage, 2004
LESLIE SCHOMP
Leslie Schomp borda desenhos repostas de sua rotina diária. Sua matéria-prima são lenços comemorativos de tecido delicado e fios de cabelo. Nos trabalhos mais recentes, além do desenho e do bordado, existe o trabalho no espaço entre as obras e a ligação entre as peças.

Double Self-Portrait, detail, 2007
DIEM CHAU (http://www.diemchau.com/)
Esta artista coloca sua obra em objetos do nosso dia-a-dia. São bordados momentos, personagens, gestos e narrativas em pratos, xícaras e copos de porcelana de maneira mínima e sensível.

Hair, s.d.
JOETTA MAUE (http://www.joettamaue.com/)
Um misto de sensualidade e casualidade pode ser percebido no trabalho desta artista. São cenas de casais, retratados e bordados em poses banais que expressam felicidade e tristeza, sentimentos diários de uma vida em comum.

On the couch ..., 2008
CATHY CULLIS (http://novembermoon.com/)
Artista e escritora, seus desenhos são expressivos e instigantes. Pessoas, textos e animais são bordados à máquina numa sobreposição de linhas, gestos e expressões.

Spring Dreamers, s.d.
MEAGAN ILEANA (http://meaganileana.blogspot.com/)
Meagan usa do bordado como uma lente para ver e registrar os momentos de sua vida pessoal. Seus desenhos exploram principalmente a sensualidade, o sexo e o corpo. O bordado é íntimo, lembrando coisas que são, muitas vezes, ocultas ou extremamente pessoais.

In the afternoon, 2008
TILLEKE SCHWARZ (http://tillekeschwarz.com/)
Tilleke é uma artista holandesa cujo trabalho é influenciado pela arte graffiti e por ícones, textos e imagens tradicionais. Seu bordado é uma coletânea de elementos que constroem uma narrativa livre, sem início, meio ou fim.

Rites, s.d.
ANDREA DEZSO (http://a.parsons.edu/)
Esta artista usa as reflexões sobre acontecimentos em família e fatos da sociedade e do cotidiano em suas criações. A coleção de bordado/recados para a mãe é o exemplo mais representativo de sua obra e de sua maneira de se expressao por meio desta técnica.

Lessons From My Mother, 2006
RODRIGO MOGIZ (http://www.escritosmogiz.blogspot.com)
É um artista mineiro, que faz um trabalho definido como desenhos bordados, ou seja, desenhos feitos em entertela com bordado usando linha de costura. Em algumas peças ele ainda aplica ainda alfinetes, miçangas, botões e também detalhes em pintura. É um trabalho de sobreposição, transparência, que explicita o conflito humano com a sexualidade, a afetividade, a violência.

Peter pan, s.d.
MATIZES BORDADOS DUMONT (http://www.matizesbordadosdumont.com/)
Bordados repletos de características pessoais, de sentimentos, de memória e de fatos do cotidiano. Estas são algumas das características do trabalho feito pela família Dumont. São 6 pessoas: mãe, quatro filhas e um filho que se reservam entre as artes plásticas, à ilustrações de livros bordados e à arte-educação.
Sem título, s.d.
ROSANA PALAZYAN
Rosana Palazyan usa como linguagem as relações de correspondência entre palavra e imagens. Para a artista, o bordado é uma redescrição do mundo, não ornamento e sim um produtor de imagem, signos e linguagens.

Daninhas Series, “... afetam o desenvolvimento de culturas produtivas...”, 2006/2008
ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO
Arthur Bispo do Rosário foi um artista, que mergulhou em seu inconsciente por problemas mentais e acabou tirando daí toda a sua obra e o resgate da sua vida. Seus bordados eram feitos com uniformes e lençóis velhos desfiados; os fios são os condutores da trágica narrativa visual/social.

Manto de apresentação, s.d.